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  • Dra Geórgia Fonseca

A Criança com Dor Abdominal Recorrente


Sempre devemos estar atentos as queixas de nossas crianças. E a dor abdominal é um sintoma relativamente frequente nelas. Devemos sempre buscar cuidados médicos quando a criança manifesta sintomas agudos, mas também quando eles são recorrentes. A dor abdominal é uma queixa comum em consultório pediátrico, chegando a 30 % ou mais das queixas em crianças em idade escolar.

Temos, em pediatria, uma sigla para isso. Ela se chama DARC que significa Dor Abdominal Recorrente Crônica. E para sua investigação, possuímos um protocolo de investigação bem estabelecido aonde devemos seguir todos os passos para o esclarecimento do diagnóstico, apesar da ansiedade dos pais para que o "remédio para vermes" seja logo prescrito.

Devemos distinguir esses pacientes em dois grandes grupos: aquelas crianças com dor periódica com sintomas clínicos subjacentes ( aproximadamente 10% dos casos) e aquelas que não manifestam outros sintomas agregados a que chamamos de dor funcional ( geralmente 90% dos casos).

A DARC de origem funcional costuma ocorrer em crianças entre os 5 e 10 anos de idade. É uma dor que a criança refere ser periumbilical ou na região do estômago ( mesoepigástrica), que varia em intensidade e que, pode sim, ser acompanhada de sintomas como palidez, suor, dor de cabeça ou náuseas. O exame físico é negativo e pode haver alguma sensibilidade na região do cólon descendente. Ao olharmos para os fatores desencadeantes da crise, o estresse sempre está presente: problemas pessoais, familiares, bullying, dificuldades escolares ( fobia escolar), morte, separações doenças ou outros traumas psíquicos. Outras situações comumente associadas a DARC funcional são excesso de ingestão de alimentos ou dieta errada, com muitos carbohidratos e corantes, o que é comum em nossos dias, constipação intestinal crônica, síndrome do cólon irritável e, raramente, enxaqueca abdominal. O prognóstico destas crianças é bom contando que as bases subjacentes à este distúrbio sejam identificadas e afastadas.

A DARC com origem orgânica pode surgir em qualquer idade. Geralmente tem posição lateralizada e há um ponto preciso de localização em que a criança refere ser sempre o mesmo. Às vezes pode ser intensa, pode acordar a criança à noite e ter intensidade de mais de uma hora, podendo ser resistente ao uso de analgésicos ou antiespasmódicos. Há sintomas conjuntos que nos sugerem uma causa física como distensão abdominal, diarréias,sonolência, hipotensão ou febre e muita dor à palpação do abdome.

Essas crianças merecem um exame físico criterioso, uma anamnese detalhada, a solicitação de exames complementares e uma atenta observação. As causas mais comuns para a DARC de origem orgânica são em 50 % dos casos devido à infecção do trato urinário. As outras causas a serem investigadas são doença inflamatória intestinal, doença celíaca, hérnia de hiato esofágico, úlcera péptica, divertículo de Meckel, duplicação ou má rotação intestinal, colecistopatias, apendicite,tuberculose, intolerância à lactose , alergias alimentares, parasitoses intestinais, doenças do colágeno, litíase urinária,crises falciformes,distúrbios metabólicos ( crise adrenal, hipoglicemia), tumor abdominal (raro), epilepsia abdominal(rara), hematocolpos, plumbismo, porfiria e até patologia da coluna lombar.

A orientação aos pais e o apoio psicológico dado pelo pediatra à família e à criança devem ser o ponto de partida inicial sempre. O pediatra deve dar explicações consistentes aos pais sobre os mecanismos possíveis para a DARC de origem funcional e solicitar o apoio de um profissional de nutrição para que o suporte prático seja dado na orientação dos hábitos alimentares do pequeno. Devemos evitar que a criança crie uma dependência aos medicamentos antiespasmódicos e, se necessário, encaminhar a criança ao suporte psicoterápico.

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