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Autismo e Inflamação - Intimamente Conectados.


Há muito, muito tempo falo da conexão entre inflamação e autismo. Durante as aulas sempre busco trazer as publicações científicas que abordam sistematicamente essa relação. Importante lembrar que toda intervenção que já foi divulgada como tendo grande impacto sobre a evolução de alguns casos de autismo foi com o uso de agentes que puderam atuar diretamente no status inflamatório.

Em 2013 comentei num post, sobre a relação entre o autismo em minha filha e seus altos níveis de PCR ( e outros marcadores inflamatórios ), o que sempre deixou à mim e aos colegas que a examinavam intrigados. A PCR é um marcador que se eleva drasticamente após lesão tecidual ou infecção como parte de uma cascata de reações corporais ao processo inflamatório (incluindo a produção de citocinas inflamatórias como a IL6 que têm sido também demonstrada alta no autismo). Outro marcador que encontro presente com recorrência é o TNF alfa e alterações frequentes na eletroforese de proteínas. Porém preciso ressaltar aqui que a inflamação tem sido apontada como vilão não somente em estudos sobre autismo e outras condições relacionadas com envolvimento neurológico como demência, doenças neurodegenerativas ,epilepsia, entre outros, e isso sempre fomentou acaloradas discussões em círculos de pesquisadores e estudiosos sobre o autismo. Minha resposta sobre a PCR elevada de minha filha veio em 2012 ao ler um estudo de Khakzad e cols que encontratam níveis significativamente, mas muito significativamente, elevados de PCR em casos de autismo comparados com os controles (The complementary role of high sensitivity C-reactive protein in the diagnosis and severity assessment of autism -Mohammad Reza Khakzad, c, Maryam Javanbakhtb, Mohammad Reza Shayeganc, Sina Kianoushd, Fatemeh Omide, Maryam Hojatif, Mojtaba Meshkata -Research in Autism Spectrum Disorders -Volume 6, Issue 3, July–September 2012, Pages 1032–1037.) No estudo de Khazard não só os níveis estavam significativamente aumentados como houve uma correlação significativa entre a gravidade dos sintomas do autismo e os níveis de PCR.

Agora pesquisadores da Universidade da Virgínia colocam mais uma lenha nesta fogueira numa publicação da Nature. A relação entre inflamação e comportamento social. Mas mais ainda! A relação entre inflamação cerebral e a hiperconectividade.

O trabalho da Virginia School of Medicine levanta questões fundamentais sobre o comportamento humano, determinado que o sistema imunológico afeta diretamente - e até mesmo controla -o comportamento social das criaturas, como o seu desejo de interagir com os outros.

Isso mesmo. A afirmação é que problemas no sistema imunológico podem contribuir para uma incapacidade de ter interações sociais normais.

"O cérebro e o sistema imunitário adaptativo foram pensados ​​para ser isolados uns dos outros, e qualquer atividade imune no cérebro era percebida como um sinal de patologia. E agora, não só estamos mostrando que eles estão intimamente interagindo, mas alguns dos nossos traços de comportamento podem ter evoluído por causa da nossa resposta imune a patógenos ", explicou Jonathan Kipnis, presidente do Departamento de Neurociência da Universidade da Virgínia. "É uma loucura, mas talvez nós sejamos apenas campos de batalha multicelulares para duas forças antigas: patógenos e sistema imunológico. Parte da nossa personalidade pode realmente ser ditada pelo sistema imunitário ".

Dr Jeff Bradstreet antes de falecer, já estava ativamente empenhado junto com Dr Marco Ruggiero na modulação deste sistema imune. Nunca vi tão maravilhosos efeitos com o uso das orientações do Dr Bradstreet e atualmente das orientações do Dream Team italiano. Eles já apontavam a relação entre microbioma intestinal e sua ligação com o cérebro pelo sistema linfático. Inflamação e disbiose X cérebro e intestino.

Então no ano passado Dr Kipnis, diretor do Centro Para o Cérebro, Imunologia e Glia da Universidade da Virgínia, descobriu que vasos das meninges ligam diretamente o cérebro com o sistema linfático e essa descoberta abriu a porta para novas formas de pensar sobre como o cérebro e o sistema imunológico interagem.

Os investigadores também descobriram que uma molécula específica imune, o interferon gama, parece ser crítica para o comportamento social, e que uma variedade de animais, tais como moscas, peixe-zebra, ratinhos, ativam respostas de interferon gama, quando eles são sociais. Normalmente, esta molécula é produzida pelo sistema imune, em resposta a bactérias, vírus ou parasitas.

O Interferon é uma proteína produzida pelos leucócitos e fibroblastos para interferir na replicação de fungos, vírus, bactérias e células de tumores e estimular a atividade de defesa de outras células. Os interferons induzem um estado de resistência antiviral em células teciduais não infectadas. Eles são produzidos na fase inicial da infecção e constituem a primeira linha de resistência a muitas viroses. Um grupo de interferons (IFNalfa e IFNbeta) é produzido por células infectadas por vírus, e um outro grupo (IFNgama) é sintetizado por células NK ou linfócitos T ativados. A atividade do interferon está profundamente relacionada com o desenvolvimento de várias doenças como doenças do colágeno, lúpus e artrite reumatóide, diabetes mellitus dependente de insulina, hepatite fulminante, pancreatite grave, nefrite, esclerose múltipla, doenças alérgicas, e aterosclerose

"É extremamente importante para um organismo ser social para a sobrevivência da espécie. É importante para alimentação, reprodução sexual, coleta, caça ", disse Anthony J. Filiano, Hartwell . "Assim, a hipótese é que quando os organismos se reúnem, você tem uma maior propensão a espalhar a infecção,porém você precisa ser social, mas ao fazê-lo você tem uma chance maior de disseminação de patógenos. A idéia seria então que o interferon gama, na evolução, foi usado como uma maneira mais eficiente para aumentar tanto o comportamento social enquanto aumentar a nossa resposta anti-patógenos ".

O trabalho dos pesquisadores da Universidade da Virgínia resume suas conclusões considerando que o sistema imunológico desempenha um "papel profundo na manutenção da função social adequada."

Assim os pesquisadores observam que um sistema imunológico com mau funcionamento pode ser responsável por "déficits sociais em numerosos distúrbios neurológicos e psiquiátricos."

A descoberta de que o sistema imunológico - e, possivelmente, germes, por extensão - pode controlar nossas interações abre fronteiras emocionantes para os cientistas explorarem, tanto em termos da luta contra distúrbios neurológicos como a compreensão do comportamento humano.

Eu concluo relacionando esse estudo com o do aumento da PCR . O que devemos primeiro admitir é que: a inflamação é uma faceta importante no autismo. Segundo: que se vai ficar discutindo o que veio primeiro: autismo ou inflamação; Terceira discussão: se os dois estão interligados ou se a inflamação é uma manifestação das alterações metabólicas pré-existentes.

Mas o fato é que o aumento no número de casos de autismo e esta conexão entre autismo e inflamação não pode ser mais desconsiderada por nenhum médico que se digne a estudar autismo. A correlação entre nível de inflamação e gravidade dos sintomas também não! E os dois devem convergir urgentemente para estudos sérios no que diz respeito ao tratamento, a verificação da existência de possíveis subgrupos de crianças no espectro mais propensos a terem os marcadores de inflamação alterados e fazer esta relação com o prognóstico.

POR QUE ISSO É TÃO IMPORTANTE? Explico: Porque inflamação é uma condição potencialmente tratável em medicina! Então aguardemos com atenção os estudos de agentes seguros que possam atuar a nível cerebral. Esperança sempre!

Os resultados foram publicados on-line pela prestigiosa revista Nature. O artigo foi escrito por Filiano, Yang Xu, Nicholas J. Tustison, Rachel L. Marsh, Wendy Baker, Igor Smirnov, Christopher C. No geral, Sachin P. Gadani, Stephen D. Turner, Zhiping Weng, Sayeda Najamussahar Peerzade, Hao Chen , Kevin S. Lee, Michael M. Scott, Mark P. Beenhakker, Litvak e Kipnis.

Unexpected role of interferon-γ in regulating neuronal connectivity and social behaviour

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