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  • Dra Geórgia Fonseca

Remédio não é balinha, não é alimento, não é panacéia.


Medicamentos possuem efeitos colaterais. Para crianças devemos calcular as doses pelo peso e superfície corporal. Eles possuem uma meia-vida, que é o tempo de ação e também têm recomendações para tempo de uso que, se prolongado demais, pode causar mais mal do que bem. Devemos considerar o estado de saúde e doenças anteriores. Muitos medicamentos possuem interação uns com os outros, o que pode gerar efeitos secundários.

Esse texto vai endereçado aos pais de MEUS pacientes. Não posso pretender dizer o que outras famílias desejam fazer ou não. Minha preocupação como Pediatra me obriga à alertar as famílias sob minha tutela e torço para que as outras famílias busquem orientação pelos seus profissionais de escolha. Aos pais que adotam por conta própria o que vou relatar aqui, desejo dizer que não estou contra vocês, não condeno nem julgo ninguém, não estou interessada em "vender" nada melhor, não os estou condenando nem criticando. Estamos do mesmo lado. Também participo imersa neste Mundo do Autismo porque tenho uma filha no espectro e sei o quanto todas as portas de saída que constantemente alguém abre à nossa frente com aquelas luzes brilhantes em volta nos deixam esperançosos e felizes. Porém o que ocorre atualmente é que este fato que vou descrever tem impactado negativamente minha prática clínica e me vejo na responsabilidade de alertar minhas famílias. Conto então com a compreensão de vocês quanto ao meu alerta particular, sempre desejando que o sucesso venha para todos. Continuo a acreditar que os pais são os principais agentes da cura de seus filhos.

Mas o caso em questão em que me vejo obrigada a comentar neste momento é sobre um chamado "Protocolo de Vermes" que tenho assistido alguns pais implementarem nos filhos por conta própria, muito apoiados também por um livro americano traduzido, cujo conteúdo científico é, ao meu ver, muito questionável. Não vou discutir aqui esse aspecto. Tudo o que se lê sobre autismo hoje em dia deve ser passado pelo crivo da razão pois a "venda da cura" está cada vez mais agressiva. O fato é que tenho recebido com frequência em meu consultório, pais implementando o tal protocolo com desastrosas consequências na saúde das crianças. Isto me obriga à um posicionamento.

O grande problema deste esquema proposto não está nos medicamentos em si, mas na forma, dose e frequência em que eles estão sendo recomendados. Não se considera a dose pediátrica por quilo de peso por dia das medicações e nem se considera a saúde prévia ou o uso de medicamentos básicos pelos pacientes como os anticonvulsivantes e psicotrópicos que muitas crianças com autismo utilizam de rotina. Além disso há recomendação de repetições mensais das doses, com real perigo de sobrecarga hepática.

Dito isso eu me permito o gracejo em dizer que estou até agora esperando um estudo que me comprove que as crianças autistas estão " cheias de vermes" e que alguns deles "nunca foram classificados pela Parasitologia". Creio que o indivíduo que descobriu isso deveria publicar seu trabalho e ganhar o Prêmio Nobel.

Vou descrever aqui os remédios que esse protocolo recomenda e minhas considerações sobre eles, seus efeitos colaterais a longo e curto prazo.

Pamoato de Pirantel _ Não vou divulgar a dose pediátrica por questões éticas. O Pirantel e os análogos dele são agentes bloqueadores neuromusculares do tipo despolarizante. Quer dizer que ele causa paralisia espástica do verme por induzir acentuada e persistente ativação nicotínica. Mas também possui um efeito de inibir as colinesterases. Assim causa despolarização e aumento da frequência de potenciais de ação nas células musculares. Nunca usar para pacientes com problemas musculares! A toxicidade por ele pode produzir bloqueio neuromuscular completo. Efeitos colaterais: Distúrbios gastrointestinais, cefaléia, exantema, tonturas e febre. Só age bem em Ascaris, enterobius, oxiúros e ancylostoma sp. Para crianças só 3 dias. Tem ação hepática intensa. Deste modo a repetição contínua que é indicada é potencialmente perigosa.

Mebendazol:

O Mebendazol é largamente utilizado por nós Pediatras. Mas sempre nos atentamos à dose e à recomendação correta da frequência de seu uso.

Ele age por inibição da polimerização dos microtúbulos por se ligar a B tubulina. As doses que andam usando são absurdas. Há crianças que só suportam 100 mg. Ele tem uma cobertura grande para verminoses mas elas são dose-dependente em decorrência do parasita que se deseja alcançar, mas geralmente ascaris, ancilóstoma e oxiúros são bem cobertos. Não é seguro em crianças abaixo de 2 anos! Tem também ação hepática intensa. Só se faz 3 dias. E com repetição em 2 semanas em geral. Tem interação medicamentosa com anticonvulsivantes. Efeitos colaterais não estão sendo considerados nestes protocolos e além de poder causar diarréias e dores abdominais, convulsões, vertigens, angioedema e pode provocar leucopenia e até agranulocitose. Pode causar aumento da TGO e da TGP, da fosfatase alcalina e da uréia nitrogenada e diminuição da hemoglobina.

Levamisol:

Usado em Pediatria como anti-helmíntico e imunomodulador. Essa ação imunomoduladora propiciou o uso em câncer e outras patologias. Porém desde 2000 foi retirado de alguns países por termos atualmente drogas mais eficazes. Um dos efeitos colaterais mais preocupantes é a agranulocitopenia, que é a diminuição do número de células brancas do sangue.É também muito usado em veterinária. Uma questão interessante é que ele tem sido usado como adulterador da cocaína nos EUA. Os seguintes efeitos colaterais foram observados em estudos clínicos:Distúrbios gastrintestinais: dor abdominal ,diarreia, náusea, vomito.Erupção cutãnea, encefalopatia, cefaléia, prurido, febre

Além disso, pasmem: estão dando um remédio veterinário da BAYER ( Que também fabrica pesticidas...) para as crianças chamado DRONTAL! Ele é usado para alguns vermes e giárdia nos cães e gatos. É uma mistura de Praziquantel , Pamoato de Pirantel e Febantel. O Praziquantel é usado para Tenia principalmente e tem muitas interações medicamentosas com anticonvulsivantes e psicotrópicos. Causa náuseas, vômitos, diarréia, anorexia, vertigens, cefaléia, , dor abdominal, urticária, eosinofilia ( Aumento dos eosinófilos) , cansaço, sonolência e convulsões. Em casos de neurocisticercose ele pode aumentar a pressão intracraniana e levar a edema cerebral. Quanto ao Febantel não há estudos de segurança em crianças!!!! Aliás há estudos sobre toxicidade em embriões. E a grande preocupação é o acesso das crianças à esses compostos usados como vermífugos para animais através do leite animal. Estudo com 723 crianças de 10 a 12 anos demonstrou 27% de contaminação com o uso do leite de vaca!

Os problemas gastrointestinais dos pacientes autistas são inquestionáveis. A disbiose. As alergias alimentares. O aumento da permeabilidade intestinal e mesmo a facilidade para as infestações por bactérias disbióticas, fungos e mesmo parasitas. E o tratamento das verminoses muitas vezes deve ser feito. A correlação estreita entre intestino e cérebro está sendo cada vez mais revelada e o trabalho intenso na Medicina Funcional para o controle destas alterações nos pacientes com autismo é o pilar fundamental do tratamento. Porém como médica, não poderei nunca me furtar aos princípios de meu juramento: " Aplicarei os regimes e medicamentos para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal ou danoso e nem um conselho que induza a perda"

Paz e Luz à todos

Dra Geórgia Fonseca

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