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  • Dra Geórgia Fonseca

O Direito à Diferença


Em um mundo em que tantas bandeiras se levantam inflamadas para a defesa de direitos individuais ou de grupos, a luta pelo direito real à diferença continua muito distante do direito à igualdade. Nossa sociedade egoísta ainda considera como aberração e caricatura aquilo que poderia ser visto como potencial e peculiaridade. E ainda o diferente é visto como estranho, incômodo e desprezível. O fato é que todo indivíduo diferente que esteve até hoje sobre a Terra, enriqueceu de algum modo a história mundial, local ou até particular da vida de alguém. E mesmo que na época em que tenham vivido, esta marca de mudança no seu entorno não tenha sido imediatamente sentida, sempre houve um legado indelével de riqueza na constatação da beleza da diversidade. Um dia, há mais de um século, um homem feio, magro, desajeitado, vestido de negro com roupas surradas, cabelos desalinhados, sobe à um palco na Europa sob a risada de todos. Tropeça e quase cai, e as risadas de mofa continuam. Empunha então seu violino e começa a tocar harmoniosa e rapidamente como nenhum outro jamais havia conseguido. Porém uma corda do violino se parte. Mas mesmo sob as novas gargalhadas ele não se detém. As cordas se partem uma a uma até que este maravilhoso mágico executa uma melodia empolgante apenas com uma corda! E este era nada menos que o incrível Paganini! Aonde estava a diferença nele, perguntarão alguns. Em quase tudo! Ele era provavelmente portador de Síndrome de Marfan e de algum grau de autismo. Suas articulações eram exageradamente flexíveis, o polegar de sua mão longilínea conseguia fazer um ângulo reto com a mão, o que permitiu que tirasse notas incríveis e rápidas de seu instrumento. Além disso seus traços autísticos se denotam em sua precocidade, em sua capacidade de tocar sem nenhuma partitura. Sua rapidez em tocar, seu jeito bisonho e misantropo, desalinhado e extremamente sério levaram ao surgimento da lenda de que ele tocava deste modo porque havia feito um pacto com o diabo.Muitas vezes em seus concertos ele uivava em direção ao público, o que os deixava mais apavorados. Os relatos sobre seus problemas de saúde coincidem muito com a Síndrome de Marfan, apesar de ter se aventado a hipótese de sua morte por tuberculose. E a diferença, a peculiaridade, e mesmo a doença deste ser tão estranho, deixou um legado incomparável, porém sem tê-lo isentado de muito sofrer com a incompreensão de seu tempo. Diferenças ou genes? Genes marcando diferenças? O que importa? A mesma sociedade que execra as crianças diferentes exalta seus heróis reais ou imaginários sem dar-se conta de que o mundo só girou até agora pela influência de muitos deles. Se Van Gohg tinha uma demência ou esquizofrenia, Dostoiévski tinha epilepsia, Chopin tinha Fibrose cística, Edgar Alan Poe tinha Transtorno Opositor Desafiador, Beethoven era depressivo, bipolar e surdo e Da Vinci era autista, muitos personagens de estórias que as pessoas amam vêm também marcados pela diferença que os faz únicos como o autismo de Sherlock Holmes ou a Disfunção Limítrofe de Personalidade de Dath Vader. Até personagens da literatura e desenhos infantis como o Ursinho Pooh que apresenta transtorno alimentar, o Leitão que tem Transtorno de Ansiedade, O Bisonho que apresenta Depressão, o coelho Abel que tem claro Transtorno Obsessivo Compulsivo, o Corujão que apresenta personalidade Narcisista e o menino Christopher que apresenta esquizofrenia e vive neste mundo paralelo da sua realidade. Então creio que a intolerância geradora de exclusão só pode ter suas origens no medo. Medo dos pobres seres mortais que não conseguem vislumbrar que a tragédia permanece apenas em seus corações endurecidos. Abraços de luz Dra Geórgia Fonseca

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