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  • Foto do escritorGeórgia Fonseca

Os Hiperfocos no Autismo

Os hiperfocos, ou se preferirem dizer, as obsessões das crianças com autismo podem variar com as semanas ou meses. Em uma semana estão hiperfocados por Era terciária e dinossauros ou a Idade Média, em outra por Thomas e seus Amigos. Aqui em casa por uma hora era Turma da Monica, Pôneis e Unicórnios ou Animes e Games. Então sua vida familiar pode girar em torno de armas, espadas, batalhas, trens e suas estações e horários, pragas e pestes medievais ou itinerário e número dos trens da sua cidade ou livros de adesivos de pôneis, jogos de CD-ROM antigos, ou busca implacável nas compras online por brinquedos ou jogos que já saíram de linha (No caso da Ju eram bonecas das antigas coleções da Moranguinho ou vídeos de desenhos da época “do onça” como Astro-Boy, Herculóides e outros mais antigos).

Tentar trabalhar para que esse foco tão direcionado vire algo criativo é uma árdua tarefa. Mas mesmo Temple Grandim diz que os pais devem aproveitar o interesse focado das crianças para ampliar suas possibilidades de engajamento em algo útil e produtivo.

Tenho um paciente, agora já adulto, que quando criança estava focado em videogames. Eu e a mãe resolvemos estimular a compra de revistas sobre games. Então o foco se ampliou também para a leitura. O estimulamos a que buscasse no Youtube e outros sites a maneira como os games seriam feitos. Hoje ele faz faculdade sobre Design de Games.

Juju sempre oscilou entre coisas da idade dela e coisas mais infantis, mas o prazer em desenhar, e principalmente colorir e pintar – com um refinado gosto para a paleta de cores – nos ajudou a usar os livros de pintura e adesivos como os “reforçadores” de lazer, após concluir as tarefas das terapias. O resultado foi muito positivo, tanto que ela concluiu um curso de Artes Plásticas e agora esta fazendo Artes Visuais. O curso de AV está bem puxado. Às vezes desanimamos porque o currículo é muito abstrato em alguns pontos. Mas vamos vendo até onde vai dar. Nosso lema é: Se ela está feliz, nós também estamos.

Talvez nossa visão, como pais, em ver o autismo apenas como um rival, nos afaste das possibilidades que podem se abrir nessa estrada tortuosa.

Uma vez ouvi um pai dizer que estamos sempre lutando para ver quem assume o controle, quem conquista mais território. Nós ou o autismo em nossos filhos. Sim, concordo, e vejo que precisamos entender que a questão não é parar de lutar, mas sim de entrarmos em um acordo de paz. E dentro do nosso acordo avaliarmos as possibilidades de auxílio mútuo.

Ficar em guerra permanente, dentro de um espaço único, aonde nenhuma das partes afinal, irá a lugar nenhum, só nos deixará exaustos e tristes. Nossos filhos e filhas estão no TEA, o TEA faz parte deles. Vamos estimular seus pontos fortes, o que lhes dá prazer. E não vamos passar o tempo todo em guerra com coisas mínimas. Por exemplo, minha filha gosta de balançar a meia 2 vezes antes de calça-la. Isto é o exemplo de uma estereotipia que não deve incomodar, quando há outros comportamentos mais importantes em que eu devo me focar em extinguir.

Vamos compreender nossos filhos e o autismo que está neles. Não somos o antigo MacGyver do seriado dos anos 80, mas se as únicas coisas que temos são pauzinhos e pedregulhos para fazer uma bomba e explodir uma porta, então mãos a obra. Contando que a porta abra passagem para ambos, nós e eles. E vamos atravessá-la com a mente mais aberta porque, na realidade, muitas portas somos nós, os pais, que fabricamos.

Dra Geórgia Fonseca

@Gf.pediatra


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