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  • Dra Geórgia Fonseca

Autismo e falta de Empatia


Empatia e autismo. Seria mesmo preciso um estudo para provar que as pessoas autistas têm sentimentos de empatia? Dentro de um mundo de rótulos, exclusão e preconceitos, talvez seja como um pequeno farol que espero um dia se agregue ao foco de luz que necessitamos se derrame urgentemente sobre as questões que envolvem o autismo, e o que se pensa sobre ele. Você me questionaria então: Qual a importância disso? Eu lhe digo que o autismo está chegando cada vez mais à sua porta, à sua vida, às suas redes de relacionamento. Atualmente uma em cada 48 crianças está no Espectro do Autismo. Em 2025 uma em cada duas crianças poderá ter algum grau de autismo.

O julgamento errôneo de que as pessoas com autismo não possuem empatia, e podem se tornar agentes de danos sociais e pessoais, precisa de esclarecimento. O estereótipo de que a rejeição ao toque ou abraço, a recusa do olhar nos olhos seja falta de afeto é muito comum. Se a compreensão do que é o Distúrbio do Processamento Sensorial existisse, talvez esse rótulo de indivíduo frio e insensível não existisse.

Pense nos seus cinco sentidos como um rádio. Tudo que você recebe por cada um deles é controlado por um botão de volume. Então imagine que todos os botões estejam virados para o volume máximo: tato, olfato, paladar, visão, audição. E agora imagine que os meios que você tem de comunicar estas impressões para o exterior seja controlado pelo botão que controla a sintonia nas estações. Porém esse botão está defeituoso. Você não pega a estação correta, ou duas ao mesmo tempo, ou com muitas interferências. Ah! Há toda aquela música lá dentro! Todos aqueles sons e impressões! Aí sim você entenderia.

O problema de falta de empatia creio ser mais epidêmico na nossa sociedade hipócrita e mecanicista do que no “mundo autista”. Empatia é ouvir com o coração e não com a cabeça. Sentir verdadeiramente. E estamos muito apressados e ocupados conosco e com nossos problemas para que nos deixemos sentir o outro e o mundo que nos rodeia. Pelo contrário, todos os autistas que conheço “sentem” intensamente!

Então os doutores Indrajeet Patil, Jens Melsbach, Kristina Hennig-Fast e Giorgia Silani publicaram na revista Nature um estudo que afirma que as pessoas autistas possuem empatia. Neste estudo foram apresentados vários “dilemas morais” aos indivíduos com autismo como por exemplo: Se você tivesse que matar uma pessoa para salvar muitas pessoas, você faria isso? E o resultado foi que, na verdade, os adultos com autismo demonstraram mais angústia do que as pessoas consideradas neurotípicas na hipótese de terem que causar danos a alguém! E o autor principal do estudo declarou: "O traço autista está associado a uma preocupação empática normal e está realmente associado a uma maior tendência para evitar causar danos aos outros".

A condição chamada de Alexitimia é quando os indivíduos não podem articular seus próprios sentimentos ou compreender os sentimentos dos outros. Porém ela afeta tanto indivíduos com autismo como a população em geral. Assim, enquanto a Alexitimia possa ser comum entre as pessoas com autismo, não é nem exclusiva nem uma característica definidora do transtorno autista. O que ocorre é que as pessoas com autismo têm um sentido reduzido do que é chamado de Teoria da Mente. Isso significa que elas têm dificuldade em perceber as emoções e pensamentos dos outros. Mas isso não significa que elas não se importam com as pessoas ou não têm empatia para com elas.

Os resultados do estudo da Nature mostraram que as pessoas com autismo exibiram um padrão normal de julgamentos morais, apesar dos déficits na cognição social e processamento emocional. A pesquisa mostrou que a distinção entre transgressões morais intencionais (que envolvem uma vítima sofredora cujos direitos pessoais são violados, por exemplo, atingindo outros) e transgressões convencionais (caracterizada por infração de proibições normativas, mas sem consequência para o bem-estar dos outros, por exemplo) está substancialmente intacta em crianças e adultos com autismo.

E quanto à nós? O que nos cabe? Qual resultado teríamos em testes quanto ao nosso “julgamento moral”? Nosso viés utilitarista e nossa reduzida preocupação empática? A cognição moral dos autistas pode ser melhor do que a nossa. Nossa sociedade caminha para o reinado da transgressão moral. Poderemos passar a comunicar o nosso sentir de maneira mais adequada? Poderemos passar e receber com empatia verdadeira os sentimentos dos outros e, deste modo, compreende-los melhor?

Mitos provocam estigmas sociais. Precisamos destruir estereótipos dolorosos que causam mais exclusão para as pessoas com autismo.

Dra Geórgia Fonseca

Divergent roles of autistic and alexithymic traits in utilitarian moral judgments in adults with autismIndrajeet Patil, Jens Melsbach, Kristina Hennig-Fast & Giorgia SilaniScientific Reports 6, Article number: 23637 (2016)doi:10.1038/srep23637:29 March 2016- Nature Scientific Reports.

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