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Adultização, redes sociais e saúde mental infantil: o que mudou — e o que precisamos fazer

  • Foto do escritor: Geórgia Fonseca
    Geórgia Fonseca
  • 19 de ago.
  • 3 min de leitura

Nos últimos dias, a discussão sobre adultização de crianças e adolescentes explodiu nas redes e saiu do nicho para a pauta pública. O influenciador Felca publicou um vídeo-denúncia com forte repercussão, detalhando casos de exploração e sexualização de menores; a repercussão foi tamanha que o presidente da Câmara, Hugo Motta, anunciou que vai pautar projetos de proteção de crianças nas redes sociais já nesta semana. CNN BrasilJovem PanFolha Vitória

Paralelamente, há projetos em tramitação: um no Senado (parado na Câmara) para fortalecer a proteção de crianças na internet; e, na Câmara, o PL 2766/24, que obrigaria plataformas a exibirem alertas de risco ao uso por menores. O governo também sinalizou foco específico em proteção infanto-juvenil no pacote de regulação das plataformas. Nada disso está resolvido — mas o tabuleiro andou. Correio 24 HorasPortal da Câmara dos DeputadosOlhar Digital

 

O que está em jogo: o cérebro em desenvolvimento

Neurodesenvolvimento não é neutro: o cérebro infantil se molda intensamente ao ambiente. Estresse precoce e demandas adultas (pressão estética, exposição pública, rotina extenuante, “conteúdos para adultos”) podem alterar a arquitetura e a conectividade de redes como a Default Mode Network (DMN) e a Central Executive Network (CEN) — circuitos centrais para atenção, controle inibitório, memória e regulação emocional. Evidências recentes conectam trauma/estresse a disfunções na DMN e na interação DMN-CEN/FPN (frontoparietal), com repercussões transdiagnósticas (ansiedade, depressão, TEPT, desregulação). FrontiersScienceDirectSpringerLinkdirect.mit.edu

Tradução clínica: a neuroplasticidade é adaptativa, mas pode cristalizar padrões emocionais disfuncionais quando o ambiente é adverso e crônico — o que explica por que crianças sob pressão persistente evoluem com hipervigilância, queixas somáticas, ansiedade, humor deprimido, distúrbios de sono e dificuldades atencionais.

 

Adultização: do feed à vida real

A adultização não é só “look” ou maquiagem: é papel social invertido. Quando likes, metas de audiência e padrões estéticos substituem o tempo de brincar, perdemos terreno em criatividade, autonomia e resolução de problemas — pilares do desenvolvimento socioemocional. A denúncia do Felca expôs um ecossistema onde menores viram produto de engajamento; a reação pública puxou a política para a mesa. CNN Brasil+1

 

O que a Câmara pode fazer agora

·       Pautar e priorizar projetos de proteção infantil nas plataformas (compromisso público anunciado). Jovem PanFolha Vitória

·       Alertas obrigatórios sobre riscos do uso para menores (PL 2766/24). Portal da Câmara dos Deputados

·       Harmonizar o pacote de regulação para plataformas com foco em crianças e adolescentes (mudança de rota já indicada). Olhar Digital

·       Avançar no que veio do Senado e está parado, destravando a proteção específica. Correio 24 Horas

Observação: projetos podem ser alterados no plenário. Acompanhamento técnico-jurídico é essencial.

 

Como famílias e escolas podem agir já (sem esperar a lei)

1) Preserve o tempo de brincarBloqueie janelas “sagradas” do dia para brincadeira livre (sem tela). Isso favorece funções executivas e autorregulação.

2) Higiene digital com propósito

·       Contas privadas, sem geolocalização.

·       Co-visualização com responsáveis e revisão periódica de seguidores.

·       Regra 3-C: Conteúdo (adequado?), Contato (com quem?), Conduta (efeito no comportamento).

3) Sinais de alerta para TEPT/estresse

·       Reexperiência (pesadelos, flashbacks), evitação de lugares/pessoas, hipervigilância, irritabilidade, queixas somáticas (dor de cabeça/abdome), regressões. Procure avaliação especializada.

4) Escola como fator de proteçãoProtocolos anti-exposição, educação midiática (letramento digital), rotinas previsíveis, e triagem para sofrimento psíquico.

5) Comunicação que acolhe

·       Nomeie emoções (“vejo que isso te deixou ansioso”).

·       Foque em previsibilidade (rotina, sono, alimentação).

·       Substitua métricas de engajamento por métricas de bem-estar (sono, humor, socialização).

Perguntas essenciais para plataformas e agências

·       Há ferramentas nativas de controle parental efetivas e fáceis?

·       Como é feita a moderação de conteúdos envolvendo crianças?

·       Existe canal rápido de denúncia e take down para exploração/sexualização?

·       A plataforma implementa verificação etária robusta?

Concluindo:

A comoção pública em torno da adultização precisa virar proteção concreta. A ciência é clara: “exigir demais, cedo demais” reorganiza redes cerebrais que sustentam atenção, memória e controle emocional. A política finalmente sinalizou movimento; cabe a nós — famílias, escolas, profissionais de saúde — garantir o direito de ser criança enquanto o Congresso faz sua parte. FrontiersScienceDirect

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